Capítulo 5 - Este Mundo Tenebroso I

Neste capítulo, começaremos a conhecer os anjos e os demônios, seus nomes e características. Apresentações e Intentos deles na grande batalha que os humanos irão enfrentar.

Continuação... Capítulo 5


Pouco além do outro lado do campus, mas a distância suficiente para estarem seguros, dois homens
gigantescos desceram à terra como refulgentes cometas branco-azulados, mantidos no ar pelo ímpeto de asas que rodopiavam formando uma sombra indistinta e queimando como relâmpago. Um deles, um homem 
enorme, corpulento, de barba preta, estava muito bravo e indignado, berrava, e gesticulava furioso com uma 
espada longa e cintilante. O outro era um pouco menor e olhava ao redor com muita cautela, tentando acalmar o seu parceiro. 
Em espiral graciosa e fulgurante, eles deslizaram para trás de um dos dormitórios da faculdade e foram  pousar nas copas pendentes de uns chorões. No momento em que seus pés tocaram as árvores, a luz de 
suas roupas e corpos começou a desaparecer e as asas tremeluzentes se aquietaram de mansinho. A não ser 
por sua estatura descomunal, eles pareciam homens comuns, um esbelto e loiro, o outro entremeado como um tanque, ambos trajando o que parecia uniforme de faxina do exército, um conjunto cáqui. Os cintos dourados haviam-se tornado semelhantes a couro escuro, as bainhas eram de cobre fosco, e os brilhantes suportes de bronze dos pés tinham-se transformado em sandálias simples de couro. O grandalhão estava pronto para uma discussão. 
— Triskal! — rosnou ele, mas ante os gestos desesperados do amigo, abaixou um pouco a voz. — O que você está fazendo aqui? Triskal manteve a mão erguida para que o amigo ficasse quieto. 
— Psiu, Guilo! O Espírito me trouxe aqui, assim como a você. Cheguei ontem. 
— Você sabe o que era aquilo? Um demônio de complacência e desespero, disso não tenho dúvida! Se  seu braço não me tivesse detido, eu o teria derrubado, e de uma única vez! 
— Oh, sim, Guilo, de uma única vez — concordou o amigo — mas foi bom eu tê-lo visto e detido a tempo.
Você acabou de chegar e não compreende... 
— O que é que não compreendo? Triskal tentou dizer de maneira convincente. 
— Nós... não devemos lutar, Guilo. Pelo menos por enquanto. Não devemos resistir. Guilo tinha certeza de que seu amigo estava enganado. Segurou com firmeza o ombro de Triskal e o olhou bem nos olhos. 
— Por que eu iria a algum lugar se não para lutar? — declarou ele. — Aqui fui chamado. Aqui lutarei. 
— Sim — disse Triskal, assentindo furiosamente com a cabeça. — Só que ainda não chegou a hora, apenas isso. — Então você deve ter recebido ordens! Você tem ordens? Triskal fez uma pausa de efeito e então disse: — Ordens de Tal.
A expressão zangada de Guilo desfez-se imediatamente em uma mistura de choque e perplexidade. 

Caía a noite sobre Ashton, e a igrejinha branca da rua Morgan Hill achava-se banhada no cálido brilho cor 
de ferrugem do sol poente. Fora, no pequeno jardim, o jovem pastor apressava-se a cortar a grama, na 
esperança de terminar antes do jantar. Cachorros ladravam na vizinhança, gente voltava do trabalho, 
crianças recebiam ordens de entrarem para jantar. Invisíveis a esses mortais, Guilo e Triskal caminharam apressadamente colina acima, furtivos e apagados, mas mesmo assim movendo-se como o vento. 
Ao chegarem à frente da igreja, Hank Busche deu a volta no canto atrás do cortador de grama ensurdecedor e Guilo teve de se deter para examiná-lo. 
— É ele? — perguntou a Triskal. — O chamado começou com ele? 
— Sim — respondeu Triskal — meses atrás. Ele está orando agora mesmo, e muitas vezes anda pelas ruas de Ashton intercedendo pela cidade. 
— Mas... este lugar é tão pequeno. Por que fui chamado? Não, não, por que Tal foi chamado? 
Triskal apenas puxou-lhe o braço. 
— Depressa, vamos entrar. 
Eles passaram rapidamente pelas paredes da igreja, adentrando o pequeno e humilde templo. Lá encontraram um contingente de guerreiros já reunidos, alguns assentados nos bancos, outros em pé pela plataforma, outros ainda fazendo o papel de sentinelas, espiando cautelosamente pelos vitrais coloridos das 
janelas. Estavam todos trajando roupas quase idênticasàs de Triskal e Guilo, as mesmas camisas e calças, mas Guilo ficou imediatamente impressionado com a estatura imponente de todos eles; eram esses os poderosos guerreiros, os potentes guerreiros, e em número maior do que ele jamais vira reunido em um só 
lugar. Impressionou-o também o ânimo da reunião. Esse momento poderia ter sido uma jubilosa reunião de 
velhos amigos, exceto pelo fato de estarem todos estranhamente sombrios. Ao correr os olhos em volta do
aposento, ele reconheceu muitos ao lado dos quais havia lutado em tempos remotos: 
Natã, o árabe alto e feroz, de muita luta e pouca fala. Foi ele que havia agarrado demônios pelos tornozelos e os tinha usado como clavas contra os próprios companheiros deles. Armote, o enorme africano cujo brado de guerra e feroz semblante geralmente bastavam para pôr o inimigo a correr antes mesmo de ele atacá-los. Guilo e Armote certa feita haviam batalhado contra os demônios senhores de cidadezinhas no Brasil e pessoalmente guardado uma família de missionários em suas muitas e longas andanças pelas matas. 
Chimon, o manso europeu de cabelos dourados, que trazia nos antebraços as marcas dos últimos golpes
de um demônio evanescente antes que Chimon o banisse para sempre no abismo. Guilo jamais havia travado conhecimento com ele, mas ouvira contar as suas proezas e sua disposição em se deixar golpear com a única finalidade de proteger outros e depois recobrar-se para derrotar sozinho incontáveis inimigos. 
Então veio o cumprimento do amigo mais antigo e mais querido. — Bem-vindo, Guilo, a Força de Muitos! 
Sim, era deveras Tal, o Capitão do Exército. Era tão estranho ver esse poderoso guerreiro em pé nesse
lugarzinho humilde e pacato. Guilo o havia visto perto da própria sala do trono do Céu, conferenciando com 
nada mais, nada menos do que Miguel. Mas ali estava o mesmo vulto impressionante de cabelos dourados e tez rosada, intensos olhos dourados como fogo e um indiscutível ar de autoridade. Guilo aproximou-se de seu capitão e os dois apertaram-se as mãos. 
— E estamos juntos novamente — disse Guilo enquanto milhares de lembranças lhe inundavam a mente. Guilo jamais vira guerreiro algum que lutasse como Tal lutava; não havia demônio que conseguisse vencê-lo em manobras e velocidade, espada alguma que pudesse desviar o golpe da espada de Tal. Lado a lado,
Guilo e seu capitão haviam derrotado os poderes demoníacos desde que esses rebeldes existiam, e haviam sido companheiros a serviço do Senhor antes que tivesse existido alguma rebelião. 
— Saudações, meu caro capitão! Tal disse à guisa de explicação: 
— E sério o negócio que nos reúne novamente. Guilo perscrutou o rosto de Tal. Sim, havia bastante confiança ali, e nem um traço de timidez. Mas trazia definitivamente uma estranha severidade nos olhos e na boca, e Guilo correu os olhos em volta do aposento outra vez. Agora ele podia senti-lo, aquele prelúdio tipicamente silencioso e agourento à comunicação de penosas notícias. Sim, todos eles sabiam algo que ele ignorava mas aguardavam que a pessoa designada, muito provavelmente Tal, falasse. Guilo não podia agüentar o silêncio, e muito menos o suspense. — Vinte e três — contou ele — dos melhores, mais galantes, mais invencíveis... reunidos agora como que sob ataque, a esconder-se de um inimigo temível em tão frágil fortaleza? — Com um gesto dramático, ele puxou da enorme espada e segurou a lâmina na mão livre. 
— Capitão Tal, quem é esse inimigo? Tal respondeu lenta e claramente: 
— Rafar, o Príncipe da Babilônia. 
Todos os olhos estavam presos ao rosto de Guilo, cuja reação foi semelhante à de cada um dos outros guerreiros ao ouvir a notícia: choque, descrença, uma pausa desajeitada para ver se alguém ria e afirmava que era apenas um engano. Não houve tal comutação da verdade. Todo o mundo no aposento continuou a olhar para Guilo com a mesma expressão mortalmente séria, tornando impiedosa-mente inescapável a gravidade da situação. 
Guilo baixou os olhos à espada. Estava ela agora tremendo em suas mãos? Ele fez questão de segurá-la com firmeza, mas não pôde deixar de fitar a lâmina, ainda arranhada e descolorida pela última vez que Guilo 
e Tal haviam confrontado esse príncipe de Baal dos tempos antigos. Guilo e Tal haviam batalhado contra ele 
durante vinte e três dias antes de finalmente derrotá-lo na véspera da queda de Babilônia. Guilo ainda se 
recordava da escuridão, da gritaria e do horror, da feroz e terrível luta corpo a corpo enquanto a dor crestava cada centímetro do seu ser. O mal daquele pretenso deus pagão parecia envolvê-lo e a tudo o que o cercava como densa fumaça, e a metade do tempo os dois guerreiros tinham de manobrar e golpear às cegas, cada um sequer sabendo se o outro ainda estava na luta. Até hoje, nenhum deles sabia qual dos dois finalmente dera o golpe que precipitou Rafar para dentro do abismo. A única coisa de que se lembravam era do berro tonitruante que ele dera ao cair através de uma brecha dentada no espaço, e depois de se verem de novo quando a grande escuridão à sua volta clareou como o dissipar de densa neblina. 
— Sei que o senhor fala a verdade — disse Guilo afinal — mas... viria alguém como Rafar a este lugar? 
Ele é o príncipe das nações, não de simples vilarejos. O que é este lugar? Que interesse poderia ele ter aqui? Tal meneou a cabeça. 
— Não sabemos. Mas é Rafar, sem dúvida, e a movimentação no reino do inimigo indica que algo está em andamento. O Espírito nos quer aqui. Precisamos confrontar o que quer que seja. 
— E não devemos lutar, não devemos resistir! — exclamou Guilo. 
— Ficarei muito fascinado em ouvir sua próxima ordem, Tal. Não podemos lutar? 
— Por enquanto, não. Somos poucos, e a cobertura de oração ainda é pequena. Não deverá haver nenhuma escaramuça, nenhuma confrontação. Não deveremos nos mostrar como agressores de forma alguma. Enquanto nos mantivermos afastados deles, perto deste lugar, e não os ameaçarmos, nossa presença aqui parecerá o cuidado normal que exercemos sobre um grupinho de santos em dificuldades — e então ele acrescentou em tom bem direto: — E será melhor se a notícia de minha presença aqui não se espalhar. Nesse momento, Guilo sentiu-se algo deslocado ainda segurando a espada, e embainhou-a com ar de desagrado. 
— E — encorajou ele — o senhor tem um plano, não tem? Não fomos chamados aqui para ver a cidade cair? O cortador de grama roncou ao passar pelas janelas, e Tal dirigiu a atenção dos presentes ao operador da máquina. 
— Foi Chimon quem teve a incumbência de trazê-lo aqui — disse ele — de cegar os olhos de seus inimigos 
e fazê-lo passar à frente do pastor que o inimigo ia escolher para este rebanho. Chimon foi bem-sucedido, 
Hank foi escolhido, o que surpreendeu a muita gente, e agora está aqui em Ashton, orando a cada hora de cada dia. Fomos chamados em favor dele, dos santos de Deus e do Cordeiro. 
— Em favor dos santos de Deus e do Cordeiro! — ecoaram todos eles. 
Tal olhou para um guerreiro alto, de cabelos escuros, aquele que o havia conduzido pela cidade na 
noite do Festival, sorriu e disse: 
— E você o fez ganhar por apenas um voto? O alto guerreiro deu de ombros. 
— O Senhor o desejava aqui. Chimon e eu tínhamos de garantir a sua vitória sobre o outro homem 
que não tem temor de Deus. Tal apresentou Guilo a esse guerreiro. 
— Guilo, este é Krioni, o vigia responsável pelo nosso guerreiro da oração aqui e da cidade de Ashton. 
Nosso chamado começou com Hank, mas a presença de Hank teve início com Krioni. 
Guilo e Krioni acenaram silenciosamente com a cabeça, saudando-se mutuamente. 
Tal observou Hank terminar de cortar a grama, orando alto ao mesmo tempo. 
— De modo que agora, enquanto seus inimigos na congregação se reagrupam e tentam encontrar outra 
forma de expulsá-lo, ele continua orando por Ashton. É um dos últimos. 
— Se não for o último! — lamentou Krioni. — Não — advertiu Tal — ele não é o único. Existe ainda um Remanescente de santos em algum lugar nesta cidade. Sempre existe um Remanescente. 
— Sempre existe um Remanescente — ecoaram todos. 
— Nosso conflito começa neste lugar. Faremos dele o nosso quartel por enquanto, cercá-lo-emos e operaremos daqui. Ele falou com um alto oriental que estava no fundo do aposento. 
— Signa, tome conta deste prédio, e escolha agora dois que fiquem ao seu lado. Este será o nosso ponto de 
descanso. Torne-o seguro. Nenhum demônio deve aproximar-se dele. 
Signa prontamente encontrou dois voluntários para trabalharem consigo. Eles sumiram rumo aos seus postos. 
— Agora, Triskal, ouvirei as notícias de Marshall Hogan. 
— Segui-o até o meu encontro com Guilo. Embora Krioni tivesse relatado uma situação algo monótona até 
a época do Festival, desde então Hogan tem sido perseguido por um demônio de complacência e desespero. Tal recebeu a notícia com grande interesse. — Hum. Pode ser que ele esteja começando a despertar. Eles o estão cobrindo, tentando mantê-lo sob controle.
Krioni acrescentou: 
— Nunca pensei que veria o que está acontecendo. O Senhor o queria na direção do Clarim, e demos um 
jeito nisso também, mas jamais vimos um indivíduo tão cansado. 
— Cansado, sim, mas isso apenas o tornará mais útil nas mãos do Senhor. E percebo que ele está realmente despertando, exatamente como o Senhor antevia. 
— Embora ele possa despertar apenas para ser destruído — disse Triskal. — Eles o devem estar vigiando. Receiam o que ele possa vir a fazer na posição influente que ocupa. 
— É verdade — respondeu Tal. — Portanto, enquanto eles exasperam o nosso urso, temos de nos 
certificar de que eles o despertem, e nada mais do que isso. Vai ser uma questão muito crítica. 
Agora Tal estava pronto a mover-se. Dirigiu-se ao grupo todo. 
— Estou esperando que Rafar tome o poder aqui até o cair da noite; não duvido de que todos sentiremos quando isso acontecer. Estejam certos de uma coisa: ele buscará de imediato a maior ameaça contra si mesmo e tentará removê-la. 
— Ah, Henry Busche — disse Guilo. 
— Krioni e Triskal, podem ter certeza de que algum tipo de pelotão será enviado com o propósito de testar o espírito de Hank. Escolham quatro guerreiros e cuidem dele. 
Tal tocou o ombro de Krioni e acrescentou: 
— Krioni, até agora você se saiu muito bem ao proteger Hank de quaisquer investidas diretas. Meus parabéns. 
— Obrigado, Capitão. 
— Estou-lhe pedindo agora que faça algo difícil. Esta noite, você precisa ficar por perto e vigiar. Não permita que toquem a vida de Hank, mas, fora disso, não impeça nada. Será um teste pelo qual ele precisa 
passar. Houve um leve movimento de surpresa e admiração, mas cada guerreiro estava disposto a confiar no julgamento de Tal. Tal continuou: 
— Quanto a Marshall Hogan... ele é o único de quem ainda não estou certo. Rafar dará incrível liberdade aos seus lacaios no que lhe diz respeito, e ele pode ceder e retroceder, ou, como todos esperamos, despertar e reagir. Rafar estará especialmente interessado nele, e eu também, esta noite. Guilo, escolha 
dois guerreiros para você e dois para mim. Tomaremos conta de Marshall esta noite e veremos como ele reage. O resto de vocês sairá à procura do Remanescente. 
Tal desembainhou a espada e a ergueu. Os outros fizeram o mesmo e uma floresta de lâminas refulgentes apareceu, erguida por braços fortes. 
— Rafar — disse Tal em voz baixa, pensativa — encontramo-nos novamente —. Então, na voz do Capitão 
do Exército, disse: 
— Pelos santos de Deus e pelo Cordeiro! 
— Pelos santos de Deus e pelo Cordeiro! — ecoaram eles.   

Complacência desenrolou as asas e deslizou para dentro do Stewart Hall, afundou no chão do andar principal, indo até as catacumbas ao nível do porão, a área separada para a administração e os escritórios 
particulares do Departamento de Psicologia. Nesse lúgubre mundo inferior o teto era baixo e opressivo, e
juncado de canos de água e tubos de aquecimento que pareciam um bando de serpentes esperando para cair. Tudo — paredes, teto, canos, painéis de madeira — era pintado no mesmo tom bege sujo, e a luz era escassa, o que, para Complacência e seus associados, era ótimo. 
Eles preferiam a escuridão, e Complacência notou que parecia estar um pouco mais escuro do que o normal. Os outros deviam ter chegado. 
Ele flutuou pelo longo sulco de um corredor em direção a uma grande porta no fundo que dizia “Sala de 
Conferências” e, atravessando-a, entrou numa caldeira de maldade viva. O aposento estava escuro, mas a escuridão parecia mais uma presença do que uma condição física; era uma força, uma atmosfera que deslizava e se arrastava pelo ambiente. Daquele negror, espiavam muitos pares de olhos amarelados sem brilho, pertencentes a uma horrível galeria de faces grotescas. 
Um brilho rubro, cuja fonte não se podia perceber, delineava as várias formas dos colegas de Complacência. Vapor amarelo serpeava em rendados tufos pelo aposento e enchia o ar com seu fedor enquanto as muitas aparições conduziam suas conversas em voz baixa e gorgolejante no escuro. 
Complacência podia perceber o desdém comum que sentiam por ele, mas o sentimento era suficientemente recíproco. Aqueles egoístas belicosos pisariam em qualquer um para se exaltarem, e acontece que Complacência era o menor e, portanto, o mais fácil de perseguir. 
Ele se aproximou de dois vultos volumosos que estavam no meio de um debate. Os braços deles, maciços e cobertos de espinhos, e as palavras venenosas que proferiam, diziam a Complacência que eram demônios especializados em ódio, que semeavam, agravavam e espalhavam o ódio, usando os braços esmagadores e os espinhos peçonhentos a fim de com eles espremer as pessoas até eliminar-lhes o amor ou envenená-lo. 
Perguntou-lhes Complacência: 
— Onde está o príncipe Lucius? 
— Encontre-o você mesmo, lagartixa! — rosnou um deles. Um demônio de lascívia, criatura coleante de olhos inquietos e esquivos, e couro escorregadio, ouviu o que diziam e, aproximando-se, agarrou Complacência nas suas garras longas e afiadas. 
— E onde você dormiu hoje? — perguntou com desdém. 
— Eu não durmo! — retorquiu Complacência. — Faço as pessoas dormirem. 
— Despertar o desejo e roubar a inocência é muito melhor. 
— Mas alguém precisa desviar os olhos dos outros. 
Lascívia pensou um pouco e deu um sorrisinho de aprovação. Largou bruscamente Complacência enquanto os que observavam caíram na risada. Complacência passou por Engano, mas nem se incomodou em perguntar-lhe coisa alguma. Engano era o demônio mais orgulhoso, mais altivo de todos, muito arrogante por seu conhecimento supostamente superior de como controlar as mentes dos homens. Sua aparência nem mesmo era tão pavorosa quanto a dos outros; ele parecia quase humano. Sua arma, gabava-se ele, era sempre um argumento constrangedor, persuasivo, sutilmente entremeado de mentiras. 
Muitos outros encontravam-se lá: Homicídio, as garras ainda pingando sangue; Anarquia, as articulações afiadas em protuberâncias pontiagudas e o couro grosso e ressecado; Ciúme, o mais desconfiado e 
difícil demônio com quem trabalhar. Mas, finalmente, Complacência encontrou Lucius, 
Príncipe de Ashton, o demônio que ocupava a posição mais alta entre todos. Lucius estava em conferência com um grupinho fechado de outros detentores de poder, repassando as próximas estratégias para controlarem acidade. Era, sem dúvida alguma, o demônio-chefe. Enorme, antes de mais nada, mantinha sempre uma postura imponente, com as asas enroladas frouxamente ao seu redor a fim de ampliar-lhe o contorno, os braços flexionados, os punhos fechados e prontos a golpearem. 
Muitos demônios cobiçavam a sua posição, e ele sabia disso; havia lutado e banido muitos deles para chegar onde estava, e tinha toda a intenção de permanecer aí. Ele não confiava em ninguém, suspeitava de todo o mundo, e sua cara negra, retorcida, e os olhos de águia estavam sempre a espalhar a mensagem de que mesmo seus associados eram inimigos. 
Complacência estava desesperado e furioso o suficiente para violar as noções de Lucius quanto ao respeito e decoro. Abriu caminho à força por entre o grupo e chegou bem diante de Lucius, que fitou nele os olhos, surpreso com a rude interrupção. 
— Meu Príncipe — rogou Complacência — preciso dirigir-lhe uma palavrinha. 
Os olhos de Lucius se entrefecharam. Quem era essa lagartixazinha para interrompê-lo no meio de uma conferência, para violar o decoro na frente dos outros? 
— Por que não está com Hogan? — rosnou ele. 
— Preciso falar com o senhor! 
— Atreve-se a falar comigo sem que eu tenha antes lhe dirigido a palavra? 
— É de vital importância. O senhor... o senhor está cometendo um erro. Está perturbando a filha de Hogan, e... Lucius imediatamente transformou-se num pequeno vulcão, vomitando horríveis imprecações e ira. 
— Você acusa o seu príncipe de erro? Atreve-se a questionar as minhas ações? 
Complacência encolheu-se, na expectativa de uma bofetada dolorosa a qualquer momento, mas mesmo assim disse: 
— Hogan não nos causará nenhum dano se não mexermos com ele. Mas o senhor acendeu um fogo dentro dele, e ele me atira longe! 
A bofetada veio, uma pancada poderosa das costas da mão de Lucius, e, enquanto revirava pelo aposento, Complacência debatia se diria ou não mais alguma coisa. Quando parou e se recobrou, ergueu os olhos e viu que todos os olhares estavam sobre ele, epodia sentir o seu zombeteiro desdém. Lucius dirigiu-se lentamente em sua direção, e postou-se em toda a sua alta estatura acima dele, como uma árvore gigante. 
— Hogan o atira longe? Não é você quem o solta? 
— Não me bata! Apenas ouça o meu pedido! Os punhos de Lucius fecharam-se dolorosamente em torno de chumaços da carne de Complacência e ergueram-no até que os olhos dos dois ficaram no mesmo plano. 
— Ele pode colocar-se em nosso caminho, e não quero saber disso! Você conhece o seu dever. Cumpra-o! — Era o que estava fazendo, e muito bem! — gritou Complacência. 
— Ele não era nada que precisássemos temer, uma lesma, um monte de barro. Eu poderia tê-lo segurado ali para sempre. 
— Então, faça isso! 
— Príncipe Lucius, por favor, ouça-me! Não lhe dê nenhum inimigo. Deixe-o sem necessidade de brigar. Lucius deixou-o cair ao chão, uma pilha de humilhação. O príncipe dirigiu-se aos outros presentes no aposento. 
— Demos um inimigo a Hogan? Todos eles sabiam como responder. 
— Não, senhor! 
— Engano — chamou Lucius, e Engano adiantouse, inclinando-se formalmente diante de Lucius. 
— Complacência acusa seu príncipe de perturbar a filha de Hogan. Você deve saber a esse respeito. 
— O senhor não ordenou ataque algum a Sandy Hogan, Príncipe — respondeu Engano. 
Complacência apontou o dedo em forma de garra e berrou: 
— Você a tem seguido! Você e seus lacaios! Vocês têm falado à sua mente, confundindo-a! 
Engano apenas ergueu os sobrolhos em leve indignação e respondeu calmamente: 
— Por convite dela própria. Só lhe dissemos o que ela prefere saber. Mal se pode chamar a isso de ataque. 
Lucius pareceu assumir algo da irritante arrogância de Engano ao dizer: 
— Sandy Hogan é um caso, mas certamente o pai é outro bem diferente. Ela não constitui a mínima ameaça para nós. Ele, sim. Devemos mandar outro para mantê-lo sob controle? 
Complacência não tinha resposta, mas acrescentou outra nota de preocupação: 
— Vi... vi mensageiros do Deus vivo hoje! Essa observação somente provocou o riso do grupo. Lucius caçoou: — Você está ficando tão medroso assim, Complacência? Vemos mensageiros do Deus vivo todos 
os dias. 
— Mas esses estavam perto! Prestes a atacar! Conheciam as minhas ações, disso estou certo. 
— Você me parece estar bem. Mas se eu fosse um deles certamente o escolheria como presa fácil. Mais 
risadas do grupo estimularam Lucius a continuar. 
— Um alvo fácil e frouxo pelo simples esporte... um demônio manco com o qual um anjo fraco pode provar sua força! Complacência encolheu-se de vergonha. Lucius deu uns passos pelo aposento, e dirigiu-se ao grupo. 
— Tememos o exército dos céus? — perguntou. 
— Como o senhor não teme, nós também não tememos! — responderam todos com grande cortesia. 
Enquanto os demônios permaneciam em sua toca 
no porão, reciprocando tapinhas nas costas e apunhalando as de Complacência, não perceberam a estranha, anormal frente fria do lado de fora. Ela se moveu lentamente sobre a cidade, trazendo vento inclemente e chuva enregelante. Conquanto a noite tivesse prometido ser brilhante e sem nuvens, foi 
escurecendo agora debaixo de um manto opressivo, meio natural, meio espiritual. 
No topo da igrejinha branca, Signa e seus dois companheiros continuaram a montar guarda enquanto a escuridão descia sobre Ashton, mais profunda e mais fria a cada momento. Por toda a vizinhança próxima, 
cães puseram-se a ladrar e a uivar. Aqui e ali uma discussão explodia entre os humanos. 
— Ele chegou — disse Signa. Entrementes, a preocupação de Lucius com a própria glória impediu-o de notar quão pequena era a atenção que estava recebendo agora por parte de suas tropas. Todos os demônios no aposento, grandes e pequenos, estavam sob o domínio de crescente medo e agitação. Todos podiam sentir algo horrível a se aproximar cada vez mais. Começaram a remexer-se, correndo os olhos de cá para lá, as caras retorcendo de apreensão. Lucius, ao passar por Complacência, deu-lhe um ponta-pé no lado, e continuou sua gabolice. 
— Complacência, pode ter certeza de que temos as coisas sob controle aqui. Nenhum dos nossos trabalhadores jamais teve de andar às escondidas commedo de ataque. Andamos livremente pela cidade, fazendo o nosso serviço sem nenhum empecilho, e nos sairemos bem em todo o lugar até que esta cidade seja totalmente nossa. Seu frouxo desajeitado! Temer é fracassar! 
Foi nesse momento que aconteceu, e tão repentinamente que nenhum deles pôde reagir de outra forma a não ser com cortantes guinchos de terror. A palavra “fracassar” mal havia deixado os lábios de Lucius quando uma nuvem violenta, fervilhante, desabou e trovejou para dentro do aposento como um vagalhão, uma avalancha súbita de força que esmagava como ferro. Os demônios foram lançados do outro lado do aposento como se fossem detritos em uma violenta maré, revirando, berrando, enrolando fortemente as asas em redor do corpo por puro terror — todos, exceto Lucius. 
À medida que os demônios se recuperavam da onda de choque inicial dessa nova presença, ergueramos olhos e viram o corpo de Lucius, contorcido como um brinquedo quebrado, nas garras de uma enorme mão preta. Ele se debatia, sufocava, afogava, pedia misericórdia, mas a mão apenas aumentava a esmagadora 
pressão, infligindo castigo sem dó, descendo da escuridão como um ciclone de uma nuvem tempestuosa. 
Então, a figura toda de uma espírito surgiu, erguendo Lucius pela garganta e sacudindo-o como uma boneca 
de pano. A coisa era maior do que qualquer outra que eles já tinham visto, um demônio gigantesco com cara 
de leão, olhos de fogo, corpo incrivelmente musculoso, e asas como que de couro a encher o aposento. 
A voz gorgolejante subia do fundo do torso do demônio e explodia em nuvens de ardente vapor vermelho. 
— Você que nada teme... está com medo agora? 
O espírito irado arremessou Lucius através do aposento para junto dos outros, e então postou-se como 
uma montanha no centro da sala, manejando uma espada mortal, em forma de S, do tamanho de uma porta. Suas garras à mostra faiscavam como as correntes douradas que lhe pendiam do pescoço e de um lado a outro do peito. Obviamente, esse príncipe dos príncipes havia recebido muitas homenagens por vitórias passadas. Seus cabelos cor de carvão caíam-lhe como juba sobre os ombros, e em cada pulso ele usava 
uma pulseira de ouro crivada de brilhantes; os dedos exibiam diversos anéis, e um cinto e uma bainha vermelho-rubi adornavam-lhe a cintura. As extensas asas negras estavam agora drapeadas às suas costas, 
como o manto de um monarca. 
Durante uma eternidade ele ficou ali, fitando-os com olhos sinistros, ardentes; estudando-os, e tudo o que podiam fazer era permanecer imóveis em seu terror, como um quadro macabro de apavorados duendes. Afinal, a grande voz ecoou das paredes: 
— Lucius, sinto que não era esperado. Você me anunciará. Levante-se! A espada cruzou o aposento e a ponta rasgou o couro de Lucius no pescoço, fazendo-o erguer-se de um salto. 
Lucius sabia que estava sendo rebaixado aos olhos de seus subalternos, mas fez o que pôde a fim de evitar a amargura e a raiva crescentes. Seu medo transparecia o suficiente para encobrir adequadamente os outros sentimentos. 
— Companheiros de trabalho... — disse ele, a voz trêmula a despeito de todos os seus esforços. — Baal 
Rafar, o Príncipe da Babilônia! 
Automaticamente, todos se puseram de pé, em parte por causa de receoso respeito, porém mais por temerem a ponta da espada de Rafar, ainda vagueando devagar de um lado ao outro, pronta a mover-se contra qualquer que lerdeasse. 
Rafar examinou-os rapidamente. Então infligiu outra afronta à pessoa de Lucius. 
— Lucius, ponha-se ao lado dos outros. Cheguei, e somente um príncipe é necessário. Atrito. Todos o sentiram imediatamente. Lucius recusou-se a mover. Seu corpo estava rígido, os punhos fechados tanto quanto sempre estavam e, embora tremesse visivelmente, devolveu de propósito o olhar fixo de Rafar e permaneceu firme. — O senhor... não pediu que cedesse o meu lugar! — desafiou ele. 
Os outros não estavam a fim de intervir ou mesmo chegar perto. Afastaram-se, lembrados de que a espada 
de Rafar podia provavelmente varrer num raio bem amplo. 
A espada realmente moveu-se, mas com tanta rapidez que a primeira coisa que se percebeu foi um grito de dor dado por Lucius enquanto rodopiava formando um nó retorcido no chão. A espada e a bainha de Lucius estavam no chão, habilmente cortadas por um rápido golpe de Rafar. Outra vez a espada se moveu, e desta vez a parte chata da lâmina prendeu Lucius ao chão pelo cabelo. 
Rafar inclinou-se sobre ele, o hálito vermelho sangue jorrando-lhe da boca e das narinas, ao falar. — Vejo que você deseja contestar a minha posição. Lucius não disse nada. 
— RESPONDA! 
— Não! — gritou Lucius. — Eu cedo. 
— Em pé! Levante-se! 
Lucius esforçou-se para erguer-se, e o braço forte de Rafar segurou-o junto aos outros. A essa altura, Lucius estava em estado lamentável, totalmente humilhado. Rafar estendeu a espada para baixo, e com a 
ponta farpada apanhou a espada e a bainha de Lucius. A espada girou como um enorme guincho e depositou as armas de Lucius nas mãos do demônio deposto. 
— Ouçam bem, todos vocês — disse Rafar, dirigindo-se a eles. — Lucius, que não teme os exércitos celestiais, mostrou ter medo. Ele é um mentiroso e um verme, e não deve merecer a sua atenção. Digo-lhes que temam os exércitos celestiais. Eles são o seu inimigo, e o intento deles é derrotá-los. Enquanto forem ignorados, ganharão terreno, e assim os vencerão. Rafar andou com passos pesados, laboriosos, 
passando e repassando pelos demônios enfileirados, inspecionando-os mais de perto. Quando chegou diante de Complacência, aproximou-se mais e Complacência caiu de costas. Rafar apanhou-o pelo cangote com um dedo e colocou-o em pé. — Diga-me, lagartixinha, o que viu hoje? 
Complacência sofreu um súbito lapso de memória. Rafar encorajou-o: 
— Mensageiros do Deus vivo, você disse? Complacência assentiu com a cabeça. 
— Onde? 
— Logo do lado de fora deste prédio. 
— O que estavam fazendo? 
— Eu... eu... 
— Eles o atacaram? 
— Não. 
— Houve um brilho de luz? 
Essa pergunta pareceu evocar uma lembrança em Complacência. Assentiu com a cabeça. 
— Quando um mensageiro de Deus ataca, sempre há luz —. Enraivecido, Rafar dirigiu-se a todos eles: — E vocês nem perceberam! Riram! Caçoaram! Quase sofreram um ataque do inimigo e o ignoraram! Nesse momento Rafar voltou-se para questionar Lucius um pouco mais. 
— Diga-me, príncipe deposto, como está a cidade de Ashton? Está pronta? 
Lucius respondeu com presteza. 
— Sim, Baal Rafar. 
— Oh, quer dizer que você já deu um jeito nesse Busche que vive a orar e nesse encrenqueiro adormecido do Hogan. Lucius ficou quieto. 
— Ainda não! Primeiro você lhes permite ocuparem lugares que reservamos para os nossos próprios protegidos especiais... 
— Foi um erro, Baal Rafar! — balbuciou Lucius. O redator do Clarim foi eliminado de acordo com as suas 
ordens, mas... ninguém sabe de onde surgiu esse tal Hogan. Ele comprou o jornal antes que se pudesse fazer 
alguma coisa. 
— E Busche? Segundo entendo, ele fugiu aos seus ataques. 
— Esse... esse era outro homem de Deus. O primeiro. Ele realmente fugiu. 
— E? 
— Esse homem mais jovem surgiu em seu lugar. Ninguém sabe de onde. Um longo, fétido suspiro escapou zumbindo pelas presas de Rafar. 
— O exército celestial — disse. — Enquanto vocês achavam que ele estava parado, seus membros moveram os escolhidos do Senhor bem debaixo dos seus narizes! 
Não é segredo que Henry Busche é um homem de oração. Vocês temem isso? Lucius assentiu com a cabeça. 
— Sim, claro, mais do que qualquer outra coisa. Nós o temos atacado, tentando fazê-lo ir embora. 
— E como ele tem reagido? 
— Ele... ele... 
— Fale! 
— Ele ora. 
Rafar meneou a cabeça. 
— Sim, sim, ele é um homem de Deus. E que me diz de Hogan? Que fizeram a respeito dele? 
— Nós... atacamos a filha dele. Os ouvidos de Complacência se aguçaram. 
— A filha? 
Mas Complacência não se pôde conter. 
— Eu lhes disse que não funcionaria! Apenas tornaria Hogan mais agressivo e o despertaria de sua letargia! 
Lucius tentou captar a atenção de Rafar. — Se meu senhor me permitisse explicar... 
— Explique — instruiu Rafar a Lucius enquanto mantinha um olho cauteloso em Complacência. Lucius rapidamente formulou um plano. 
— Às vezes um ataque direto não é o melhor, por isso... descobrimos uma fraqueza na filha dele e achamos que poderíamos desviar as energias dele em direção à mocinha, talvez destruí-lo em casa e desintegrar a família. Pareceu funcionar com o antigo redator. Pelo menos, foi um começo. 
— Não dará certo — bradou Complacência. — Até mexerem com seu senso de bem-estar e conforto ele era inofensivo. Agora receio não conseguir detê-lo. Ele está... 
Um gesto rápido e ameaçador por parte da mão estirada de Rafar conteve as lamúrias de Complacência. 
— Não quero que Hogan seja detido — disse Rafar. 
— Quero-o destruído. Sim, peguem a filha. Peguem qualquer outra coisa que possa ser corrompida. Um risco é melhor removido, não tolerado. 
— Mas... — gritou Complacência, mas Rafar apanhou-o rapidamente e disse soltando-lhe baforadas venenosas bem na cara. 
— Desanime-o. Certamente isso você pode fazer. 
— Bem... 
Mas Rafar não estava com a mínima disposição de esperar resposta. Com um vigoroso voltear do pulso, arremessou Complacência fora do aposento, de volta ao trabalho. 
— Nós o destruiremos, atacando-o por todos os lados até não lhe sobrar nem um pedaço firme de chão do qual possa lutar. Quanto a esse novo homem de Deus que surgiu, estou certo de que uma armadilha adequada pode ser armada. Mas com relação aos nossos inimigos: qual a sua força? 
— Não são nada fortes — respondeu Lucius, tentando recuperar a posição de competência. 
— Mas espertos o bastante para fazê-lo pensar que são fracos. Um erro fatal, Lucius —. Ele se dirigiu a 
todos: — Vocês não devem mais subestimar o inimigo. Vigiem-no. Contem quantos são. Saibam por onde andam, suas habilidades, seus nomes. Jamais missão alguma foi empreendida que não fosse desafiada pelos 
exércitos celestiais, e esta missão não é nada pequena. Nosso senhor tem planos muito importantes para esta cidade, mandou-me a pô-los em prática, e isso é suficiente para trazer nada menos que as hordas 
inimigas sobre as nossas cabeças. Acautelem-se, e não cedam terreno em parte alguma! E quanto a esses dois espinhos em nossa pata, essas duas barreiras implantadas... esta noite veremos de que são feitas.


Feira do Livro Joinville 2013


Que tal aproveitar o fim de semana para curtir a 10ª edição da Feira do Livro Joinville - SC ?

A entrada é gratuita e a diversão é garantida.

Para maiores informações, entre no site.



Feira do Livro EACH - USP

Oi amigos...
Para quem mora em São Paulo uma ótima dica e parada na Feira do Livro da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo. 

A Feira rola só até sexta-feira, dia 12/04. Os livros serão vendidos com, no mínimo, 50% de desconto. Não perca!


Vamos Ler?


Parecem de pelúcia? Mas não são! rsrsrs Amei esta imagem..
(eu amo gatos)

"Vamos ler" é um tema que quando muitas pessoas ouvem saem correndo e dizem sim, adoro ler mas não tenho tempo, não consigo... sinto sono... me da dor nas costas... sei lá, inventam mil desculpas.
A leitura simplesmente não precisa ser de um livro convencional. Postamos fotos ou pensamos em  livros porque é primeiro objeto que nos vêm à mente. Crescemos na escola com esse pensamento, pelo menos na minha época.
Mas a leitura está em nosso dia a dia. No andar pelas ruas, naquela olhadela na banca de revistas, dentro dos transportes públicos, nas placas, nos outdoors, nos supermercados, nossa..há uma infinidade de lugares onde podemos ler alguma coisa. 
A internet é outro meio muito eficaz. Com a modernidade temos até nossos eternos livros em e-books para quem quiser e faz facilitar a vida.
Alguém pode falar... nada como o bom e velho cheirinho do livro... eu concordo, plenamente!
Parece que dá uma emoção maior, contudo também valorizo outros meios de comunicação, além de que na escola os programas de TIC ajudam e muito os jovens alunos no mundo cibernético.
Enfim, esta é a minha dica de hoje para a leitura.
Bjinhos

Capítulo 4 - Este Mundo Tenebroso I

Oi oi gente... tudo bom?
Bem, para quem nunca leu este livro ou já ouviu falar, vale a pena você ler, ele retrata o mundo espiritual onde anjos e demônios atuam em nossas vidas. É uma história fictícia, mas pra quem leu sabe realmente o que é e sente quando está sendo atacado por algum demônio. E a guerra está travada. Mas graças a Deus que envia seus anjos para nos ajudar, guerrear e proteger.

Continuação.... Capítulo 4

Se alguém pudesse tê-lo visto, a impressão inicial  não teria sido tanto a sua aparência de réptil verrugoso
mas a maneira pela qual seu vulto parecia absorver a luz e não refleti-la, como se ele fosse mais uma sombra
do que um objeto, um estranho buraco animado no espaço. Mas esse pequeno espírito era invisível aos olhos humanos, invisível e imaterial, vagueando sobre a cidade, virando deste lado e daquele, guiado pela
vontade e não pelo vento, as asas rodopiantes propelindo-lhe o corpo, vibrando num borrão acinzentado.
Ele parecia um pequeno e nervoso gárgula, o couro de um negror viscoso e profundo, o corpo magro e
aracnídeo: meio humano ide, meio animal, totalmente demônio. Dois enormes olhos amarelos como os de um gato saltavam-lhe da cara, disparando de um lado para o outro, espreitando, procurando. O fôlego saía-lhe em arquejos curtos e sulfurosos, visível como brilhante vapor amarelo.
Ele vigiava e acompanhava cuidadosamente a sua incumbência, o motorista de um carro marrom nas ruas
de Ashton, lá embaixo.
Marshall deixou o escritório do Clarim um pouco mais cedo naquele dia. Depois da confusão da manhã, foi uma surpresa encontrar o Clarim de terça-feira já na tipografia e o pessoal ajeitando as coisas para a sexta-feira. Um jornal de interior era exatamente o ritmo certo... talvez ele pudesse voltar a conhecer a sua filha.
Sandy. Sim, senhor, uma linda moça de cabelos cor de fogo, filha única do casal. Era um mundo de potencial, mas havia passado a maior parte da infância com uma mãe excessivamente presente e um pai excessivamente ausente.
Marshall era um sucesso em Nova York, isso ele era, em quase tudo exceto em ser o pai de que Sandy precisava. Ela sempre fizera com que ele soubesse disso, mas como dizia Kate, os dois eram muito parecidos; os clamores por amor e atenção que ela emitia sempre saíam como pequenas punhaladas, e Marshall lhe dava atenção, isso dava, como cães dão a
gatos. Não vamos brigar mais, repetia ele consigo mesmo, não vamos mais implicar e arranhar e magoar. Deixe-a falar, deixe-a pôr para fora o que sente, e não seja duro com ela. Ame-a pelo que ela é, deixe que ela seja ela mesma, não tente encurralar a menina. Era uma loucura o modo pelo qual o seu amor pela filha estava sempre a manifestar-se em forma de despeito, através de irritação e sarcasmo. Ele sabia que estava apenas tentando alcançá-la, tentando trazê-la de volta. Mas nunca funcionava. Ah, vamos, Hogan, tente,
tente de novo, e não ponha tudo a perder esta vez. Ao virar a esquerda, ele pôde ver a faculdade à frente. O campus da faculdade Whitmore não era diferente da maioria dos campus norte americanos —
lindo, com prédios imponentes e antigos que levavam as pessoas a se sentir cultas só de olhá-los; amplas áreas bem gramadas, recortadas por calçadas de tijolo e pedras cuidadosamente padronizadas, margeadas por rochas, plantas e estátuas. Era tudo quanto uma boa faculdade devia ser, inclusive as vagas limitadas a
quinze minutos de estacionamento. Marshall estacionou o carro e partiu à procura do Stewart Hall, que abrigava o Departamento de Psicologia e a última aula de Sandy naquele dia.
Whitmore era uma faculdade particular, fundada na década dos vintes por um proprietário de terras como memorial a si mesmo. Olhando antigas fotos do lugar, descobria-se que alguns dos prédios de aula, de tijolo
vermelho à vista e colunas brancas, eram tão antigos quanto a própria faculdade; monumentos do passado e
supostos guardiões do futuro. Era verão e o campus estava relativamente quieto. Marshall pediu informações a um aluno que lançava discos de plástico ao ar e virou à esquerda numa rua ladeada de elmos. No fim da rua, ele encontrou o prédio que procurava, uma imponente estrutura com torres e arcadas, copiada de alguma catedral européia. Abriu as grandes portas duplas e se encontrou num saguão espaçoso e ressonante. O fechar da grande porta criou tão fragorosa reverberação contra o teto abobadado e as paredes lisas que Marshall pensou ter perturbado todas as aulas naquele andar. Mas agora não sabia aonde ir. O lugar se compunha de três andares e cerca de trinta salas de aula, e ele não tinha a mínima idéia de qual delas era a de Sandy. Ele começou a caminhar pelo corredor, tentando abafar o ruído dos saltos dos sapatos. Nesse lugar, não se podia manter em segredo nem mesmo um arroto.
Sandy era uma caloura. A mudança da família para Ashton tinha sido um tanto tarde, e, a fim de alcançar os outros, ela se havia matriculado em cursos oferecidos durante o verão. Mas, apesar de tudo, havia sido a hora certa de transição para ela. Por enquanto ela não havia decidido em que se formar; ainda estava tentando descobrir o que queria e fazia as matérias preliminares. Em que lugar um curso de “Psicologia do
Eu” se encaixava em tudo isso era algo que Marshall não conseguia entender, mas ele e Kate não desejavam
apressar a filha. De alguma parte, vindo do fundo do cavernoso saguão ecoavam as palavras indistintas mas bem ordenadas de uma palestra, uma voz de mulher. Ele resolveu verificar. Passou pela portas de diversas salas de aula, os pequenos números pretos em ordem decrescente, depois um bebedouro, os banheiros, e uma maciça escadaria de pedra e ferro. Finalmente, ao aproximar-se da Sala 101, ele começou a distinguir as palavras da palestra. “... assim, se nos contentarmos com uma simples fórmula ontológica, Tenso, logo existo', isso deveria pôr fim à questão. Mas ser não pressupõe significar.
Sim, cá estava mais daquela história de faculdade, aquele ajuntamento esquisito de palavrório complicado que impressiona as pessoas com suas conquistas acadêmicas mas não consegue arranjar-lhe um emprego que lhe pague coisa que preste. Marshall riu consigo mesmo, uma risadinha convencida. Psicologia. Se todos aqueles psicólogos conseguissem pelo menos chegar a um acordo para variar, seria bom. Primeiro Sandy deu como causa de sua atitude mal-humorada a violenta experiência do nascimento, e depois, o que tinha sido mesmo? Problemas em aprender a usar o peniquinho. A sua nova mania era auto-conhecimento, auto-estima, identidade; ela já sabia viver toda envolvida em si mesma — agora lhe ensinavam a mesma coisa na faculdade.
Ele espiou pela porta e viu um anfiteatro, com filas de assentos montados sobre níveis cada vez mais altos até chegarem ao fundo da sala, e a pequena plataforma na frente onde a professora discursava contra um enorme quadro-negro. “... e o significar não vem necessariamente do pensar, pois já se disse que o Ego nada tem a ver com a Mente, e que a Mente, na realidade, nega o Ego e inibe o Auto-conhecimento...” Caramba! Ele não sabia por que, mas havia esperado encontrar uma mulher mais velha, magra, o cabelo preso num birote, usando óculos de aro de tartaruga presos a uma corrente de continhas à volta do pescoço. Mas a que ali estava era uma chocante surpresa, tirada de alguma propaganda de batom ou de
roupas: longos cabelos loiros, corpo esbelto, olhos profundos, escuros, que tremiam um pouco mas certamente não necessitavam de óculos, aro de tartaruga ou não.
Então Marshall vislumbrou o chamejar de cabelos cor de fogo, e viu Sandy sentada perto da frente, ouvindo atenta, e febrilmente rabiscando anotações. Bingo! Essa tinha sido fácil. Ele resolveu entrar de mansinho e ficar ouvindo até o fim da palestra. Talvez assim descobrisse o que Sandy estava aprendendo e então teriam sobre o que conversar. Ele passou silenciosamente pela porta, e tomou um dos lugares vazios no fundo.
Foi então que aconteceu. Algum tipo de radar na cabeça da professora deve ter dado o sinal. Seus olhos convergiram sobre Marshall, sentado ali, e simplesmente não o largaram mais. Ele não tinha o mínimo desejo de chamar atenção para si — já estava recebendo demasiada atenção da classe — por isso não disse nada.
Mas a professora parecia examiná-lo, perscrutando-lhe o rosto como se o conhecesse, como se estivesse tentando lembrar-se de alguém a quem conhecera antes. A expressão que repentinamente lhe assomou ao rosto provocou um calafrio em Marshall: ela dirigiu-lhe um olhar cortante, como se partisse dos olhos de um puma acossado. Ele começou a sentir um correspondente instinto de defesa dar-lhe nó no estômago.
— O senhor deseja alguma coisa? — exigiu a professora, e tudo o que Marshall podia ver eram os dois
olhos penetrantes.
— Estou apenas esperando a minha filha — respondeu ele em tom amável.
— Não quer fazer o favor de esperar lá fora? — disse ela, e não era uma pergunta.
E ele se encontrou no corredor. Encostou na parede, os olhos fixos no linóleo, os pensamentos em torvelinho, os sentidos embaralhados, o coração batendo com força. Não conseguia atinar com o motivo de estar ali, mas estava no corredor, fora da sala. Sem mais essa nem aquela. Como? O que havia acontecido? Vamos, Hogan, pare de tremer e pense! Ele tentou repassar mentalmente o que havia acontecido, mas as coisas voltavam devagar, teimosamente, como o relembrar de um pesadelo. Os olhos daquela mulher! O modo como eles o olharam lhe disseram que, de alguma forma, ela sabia quem ele era, embora jamais se tivessem encontrado — e jamais ele vira ou sentira tanto ódio. Mas não era apenas o olhar; era também o medo; medo que foi crescendo, drenandolhe o rosto e acelerando o coração, que o invadiu sem motivo, sem uma causa aparente. Ele tinha ficado quase morto de medo... a troco de nada! Não fazia o mínimo sentido. A vida inteira, ele jamais se havia recusado a enfrentar qualquer coisa nem tinha fugido de nada. Mas agora, pela primeira vez... Pela primeira vez? A lembrança do olhar cinzento e fixo de Alf Brummel relampejou-lhe na mente, e a fraqueza retornou. Ele piscou tentando expulsar a imagem e respirou fundo. Onde estava a sua antiga coragem? Será que a havia deixado no escritório de Brummel?
Mas ele não tinha conclusões, teorias, explicações, apenas escárnio para consigo. Murmurou: “Pois é, cedi
novamente, como uma árvore podre” e, como uma árvore podre, encostou-se à parede e esperou.
Em poucos minutos a porta que dava para o anfiteatro abriu-se e os alunos começaram a espalhar-se em todas as direções, como abelhas saindo da colméia. Eles o ignoraram de modo tão completo que Marshall se sentiu invisível, mas isso era ótimo para ele no momento.
Então Sandy apareceu. Ele se endireitou, encaminhou-se na direção dela, começou a dizer alô... e ela passou direto por ele! Não parou, não sorriu, nem lhe devolveu o cumprimento, nada! Ele ficou parado
como bobo uns instantes, vendo-a caminhar pelo corredor em direção à saída.
Então ele a seguiu. Não estava mancando, mas, por algum motivo, tinha a impressão de estar. Não estava realmente arrastando os pés, mas eles pareciam de chumbo. Viu a filha sair pela porta sem olhar para trás. A batida que a enorme porta deu ao fechar ecoou por todo o saguão com uma finalidade grave, condenadora, como o estrondo de um enorme portão que o separasse para sempre daquela a quem ele amava. Ele se deteve no amplo saguão, entorpecido, impotente, meio cambaleante, sua corpulenta figura parecendo muito pequena. Invisível a Marshall, pequenos jatos de fôlego sulfuroso avançavam pelo chão como água lenta, acompanhados de inaudível esfregar e arranhar o piso.
Como uma negra e viscosa sanguessuga, o pequeno demônio se apegou a Marshall, as garras de seus dedos entrelaçando as pernas dele como os tendões de uma parasita, segurando-o, envenenando-lhe o espírito. Os olhos amarelados saltavam da face retorcida, vigiando-o, penetrando-o.
Marshall sentia uma dor profunda e crescente, e o pequeno espírito o sabia. Estava ficando difícil de segurar este homem. Enquanto Marshall permanecia no grande saguão vazio, a mágoa, o amor, o desespero começaram a crescer dentro de si; ele podia sentir que uma quase extinta centelha de luta ainda ardia. Pôs-se a caminhar rumo à porta.
Mexa-se, Hogan, mexa-se! É a sua filha! A cada passo decidido, o demônio era arrastado pelo chão atrás dele, as mãos ainda a agarrá-lo, raiva e fúria cada vez mais profundas subindo-lhe aos olhos e vapores sulfurosos explodindo de suas narinas. As asas se abriram à procura de uma âncora, qualquer jeito de deter Marshall, mas não encontraram nada. Sandy, pensou Marshall, dê uma chance ao seu velho.
Ao chegar ao fim do corredor, ele estava quase correndo. Suas mãos atingiram a barra antichoque da porta e esta se abriu violentamente, batendo com força no retentor preso aos degraus externos. Disparando escada abaixo, ele chegou à calçada ensombreada pelos elmos. Correu os olhos pela rua, pelo gramado na frente do Stewart Hall, do outro lado, mas a filha havia desaparecido.
O demônio agarrou-o com mais força e pôs-se a escalá-lo, coleando corpo acima. Marshall ali, sozinho, sentiu as primeiras pontadas de desespero.
— Estou aqui, Papai.
Imediatamente o demônio perdeu o controle e caiu, bufando de indignação. Marshall girou nos calcanhares e viu Sandy, de pé bem ao lado da porta pela qual ele havia acabado de sair qual furacão, aparentemente tentando esconder-se das colegas entre os pés de camélia, e pelo que tudo indicava, pronta a lhe
passar uma carraspana. Ora, qualquer coisa era preferível a perdê-la, pensou Marshall.
— Bem — disse ele antes de pensar — desculpe-me, mas tenho a distinta impressão de que você fingiu
não me conhecer lá dentro. Sandy tentou manter-se ereta, enfrentá-lo em sua mágoa e raiva, mas mesmo assim não conseguia olhar diretamente nos olhos do pai.
— Foi... foi apenas doloroso demais.
— O que foi?
— Você sabe... a coisa toda lá dentro.
— Bem, gosto de fazer bastante estardalhaço, sabe? Algo de que as pessoas se lembrarão...
— Papai!
— Então quem foi que roubou todos os avisos de “Entrada Proibida aos Pais”? Como é que eu ia saber
que ela não me queria lá dentro? E o que, afinal, é tão precioso e secreto assim que ela não quer que ninguém de fora escute?
Naquele momento a raiva de Sandy falou mais alto que a mágoa e ela conseguiu olhá-lo direto nos olhos.
— Nada! Absolutamente nada. Era só uma palestra.
— Então qual é o problema da professora? Sandy tateou à procura de uma explicação.
— Não sei. Acho que ela deve saber quem você é.
— De jeito nenhum. Jamais a vi. Então uma pergunta surgiu automaticamente na cabeça de Marshall:
— Você quer dizer que ela deve saber quem sou? Sandy pareceu encurralada.
— Quero dizer... oh, que coisa. Talvez ela saiba que você é o redator do jornal. Talvez não queira repórteres bisbilhotando por aqui.
— Bem, espero poder dizer-lhe que não estava bisbilhotando. Estava apenas procurando você.
Sandy queria encerrar a discussão.
— Está bem, Papai, está bem. Ela apenas o entendeu mal, certo? Não sei qual era o problema dela. Acho que tem o direito de escolher sua audiência.
— E eu não tenho o direito de saber o que a minha filha está aprendendo?
Sandy deteve o que já estava para dizer e deduziu algumas coisas primeiro.
— Você estava bisbilhotando! 
Mesmo enquanto acontecia, Marshall percebeu sem o menor resquício de dúvida que eles haviam embarcado de novo na antiga rotina, como cães e gatos, como galos de briga. Era uma loucura. Parte dele não desejava que tal acontecesse, mas o resto dele estava frustrado e indignado demais para parar.
Quanto ao demônio, estava encolhido ali por perto, desviando-se de Marshall como se o homem
estivesse em brasa. O demônio observava, esperava, irritava-se.
— Que bisbilhotando, que nada! — trovejou Marshall. — Estou aqui por ser seu amoroso papai e querer apanhá-la depois das aulas. Stewart Hall, era tudo o que eu sabia. Encontrei-a por acaso, e... — Tentou frear-se. Perdeu um pouco do ardor, cobriu os olhos com a mão, e suspirou.
— E aproveitou para me vigiar! — sugeriu Sandy com rancor.
— Há alguma lei contra isso?
— Está bem, vou-lhe explicar como são as coisas. Sou um ser humano, Papai, e toda entidade humana, não importa quem seja, está sujeita, em última instância, a um desígnio universal e não à vontade de um indivíduo específico. Quanto à professora Langstrat, se não desejar você na palestra, é prerrogativa dela exigir que saia!
— Mas quem é que paga o salário dela? Sandy ignorou a pergunta.
— Quanto a mim, e o que estou aprendendo, e em que me estou tornando, e aonde estou indo, e o que desejo, digo que você não tem o direito de infringir o meu universo a menos que eu pessoalmente lhe ceda
esse direito!
A vista de Marshall estava sendo turbada por imagens de Sandy na posição de levar umas boas palmadas. Enraivecido, ele precisava descontar em alguém, mas nesse momento tentava desviar de Sandy as suas investidas. Ele apontou o prédio de onde haviam saído e exigiu:
— Foi... foi ela quem lhe ensinou isso?
— Você não precisa saber.
— Tenho o direito de saber!
— Você abriu mão desse direito, Papai, há muito tempo.
Esse soco jogou-o à lona, e ele não tinha conseguido ainda recuperar-se totalmente quando ela se foi em direção à rua, escapando dele, escapando à miserável, teimosa refrega em que estavam envolvidos.
Ele lhe gritou algo, alguma pergunta meio idiota sobre como chegaria a casa, mas ela nem mesmo diminuiu os passos. O demônio agarrou a oportunidade e Marshall, que sentiu a raiva e auto-justificação darem lugar a um profundo desespero. Ele falhara. Justamente a coisa que ele nunca mais queria fazer, havia feito. Por que cargas d'água era esse o seu feitio? Por que não podia simplesmente aproximar-se dela, amá-la, reconquistá-la? Ela já estava desaparecendo de vista, tornando-se cada vez menor ao atravessar apressada o campus, e parecia tão distante, além do alcance de um braço amoroso. Através da vida e das lutas ele havia sempre tentado ser forte, ser durão, mas no momento estava tão ferido que não conseguia evitar que essa força se esboroasse ao seu redor em ínfimos pedaços. Enquanto ele olhava, Sandy desapareceu numa esquina distante sem sequer olhar para trás, e algo partiu-se dentro dele. Sua alma parecia estar a ponto de se derreter, e naquele momento não havia ninguém no mundo a quem ele odiasse mais do
que a si mesmo. As forças de suas pernas pareceram ceder ao do peso da sua dor, e ele afundou até os degraus na frente do velho prédio, desanimado. As garras do demônio circundaram-lhe o coração e ele murmurou em voz trêmula:
— De que adianta?
“Iahaaaaá!” veio um clamor trovejante de uns arbustos próximos. Uma luz branco-azulada cintilou. O demônio largou a presa e sumiu como uma mosca apavorada, aterrizando a uma boa distância em postura
trêmula e defensiva, os enormes olhos amarelados praticamente a saltar da cabeça e uma cimitarra
farpada, cor de carvão pronta na mão que tremia. Mas então houve um inexplicável tumulto atrás daqueles
mesmos arbustos, algum tipo de luta, e a fonte da luz desapareceu no canto do Stewart Hall.
O demônio não se mexeu, mas esperou, escutando, observando. Não se ouvia som algum a não ser o da leve brisa. Com toda a cautela, ele retornou sorrateiramente ao lugar onde Marshall ainda estava
sentado, passou por ele, e espiou por entre os arbustos e no canto do prédio. Nada. Como se detido durante todo esse tempo, um longo, lento bafo de vapor amarelo saiu em leves fiapos encaracolados das narinas do demônio. Sim, ele sabia o que tinha visto; disso não tinha dúvida. Mas por que é que eles haviam fugido?


A Viagem - Evanir

Olá amigos, como está sendo este domingo? Graças a Deus tudo na paz por aqui.

Hoje venho divulgar para vocês o livro da minha amiga e afilhadinha virtual Evanir Ribeiro. Pode ser que muitos já tenham lido ou conhecem o livro, contudo vamos divulgar e fazer rodas aos quatro cantos da terra? É isso mesmo!
:

A Evanir tem um blog que tem o mesmo nome do livro A Viagem, se quiserem também conhecer por lá, fiquem à vontadinha.

Sobre o livro da Evanir, ele é baseado em fatos reais. A autora nos traz, de uma forma deliciosa, uma história verídica, na qual os nomes dos personagens foram trocados para preservar as suas identidades. Através desta bela história, veremos como é possível mergulharmos dentro de nosso próprio eu e quebrarmos as barreiras que nos impedem de alcançarmos os mais profundos voos em busca de  nossa felicidade. Um livro que nos mostra que sonhos foram feitos para serem realizados, mesmo que a realização deles demore uma vida toda.

Pela Editora All Print, custa apenas 35,00. Faça seu pedido no site, no banner está o link.
  
Autora: Evanir S. Garcia
Categoria: Romance
Disponibilidade: Em Estoque

Ou pode pedir direto para a Evanir no e-mail:
evanir_garcia@hotmail.com

Fica aí a Dica 


Capítulo 3 - Este Mundo Tenebroso

Continuação...

Capítulo. 3


A poucos quilômetros da cidade, na Rodovia 27, uma grande limusine preta deslizava rapidamente pela 
paisagem campestre. No luxuoso banco traseiro, um rechonchudo homem de meia-idade falava de negócios 
com a secretária, uma mulher alta e esguia de longos cabelos negros e tez pálida. Falando nítida e sucintamente enquanto ela tomava notas em fluida estenografia, ele planejava uma transação comercial de 
grande porte. Então algo aconteceu ao homem. 
— Isso me faz lembrar — disse ele, e a secretária ergueu os olhos do bloco de anotações. — A professora
alega ter-me mandado um pacote há algum tempo, mas não me recordo de tê-lo recebido. 
— Que tipo de pacote? 
— Um livrinho. Um item pessoal. Tente lembrar-se de procurá-lo quando estiver de volta à fazenda? 
A secretária abriu a pasta e deu a impressão de ter anotado alguma coisa. Na realidade, não escreveu 
nada. 

Era a segunda visita que Marshall fazia à Praça do Tribunal no mesmo dia. A primeira vez havia sido para 
tirar Berenice da cadeia, e agora fazia uma visita a exatamente ao mesmo homem que Berenice queria  enforcar: Alf Brummel, o Delegado. Depois que o Clarim finalmente foi para a tipografia, Marshall estava prestes a chamar Brummel, mas Sara, a secretária de Brummel, chamara Marshall primeiro e marcara um encontro entre os dois para as duas horas da tarde naquele mesmo dia. Havia sido uma boa jogada, pensou Marshall. Brummel estava pedindo tréguas antes que os tanques começassem a rolar. 
Estacionou no lugar que lhe era reservado na frente do novo edifício do tribunal e fez uma pausa ao lado do carro a fim de olhar para cima e para baixo na rua, avaliando o que restara da agonia da noite de domingo, a última do Festival. A rua principal procurava ser a mesma de sempre, mas aos olhos perspicazes de Marshall a cidade toda parecia estar mancando, meio cansada, dolorida, morosa. Os mesmos grupinhos de
pedestres geralmente meio apressados paravam, olhavam, meneavam a cabeça e lamentavam. Por gerações, Ashton se havia orgulhado do calor e dignidade do seu povo e se havia esforçado em ser um bom lugar onde seus filhos crescessem. Mas agora havia tumultos íntimos, ansiedades, receios, como se algum
tipo de câncer a estivesse corroendo e destruindo-a invisivelmente. Por fora havia as vitrinas, agora
substituídas por feios tapumes. Os medidores de estacionamento estavam quebrados, o lixo e cacos de
vidro se espalhavam por toda a rua. Mas mesmo enquanto os lojistas e os comerciantes varriam o entulho, parecia haver uma silenciosa certeza de que os problemas internos permaneceriam, as dificuldades continuariam. Os crimes estavam aumentando, especialmente entre os jovens; a confiança comum e simples
no próximo estava diminuindo; nunca a cidade estivera tão cheia de boatos, escândalos e fofocas maliciosas. À sombra do medo e da suspeita, a vida estava aos poucos perdendo a sua alegria e simplicidade, e ninguém parecia saber por que nem como. Marshall dirigiu-se à Praça do Tribunal. A praça consistia de dois prédios, agradavelmente guarnecidos de chorões e arbustos, de frente para um estacionamento comum aos dois. Em um lado estava o elegante prédio do Tribunal, dois andares de tijolo à vista, que também abrigava o Departamento de Polícia e um porão um tanto decadente com seu bloco de celas.
Um dos três carros policiais estava estacionado do lado de fora. No outro lado encontrava-se o prédio da
Prefeitura, de dois andares e frente de vidro, que abrigava o gabinete do Prefeito, a câmara dos vereadores, e outras autoridades. Marshall dirigiu-se ao Tribunal. Passando por uma entrada simples e modesta marcada “Polícia”, ele encontrou vazia a pequena área de recepção. Ele podia ouvir vozes vindas do corredor detrás de algumas das portas fechadas, mas Sara, a secretária, parecia ter deixado temporariamente a sala. Não — atrás do balcão recoberto de fórmica da recepcionista um enorme arquivo balançava lentamente para a frente e para trás, e grunhidos e gemidos vinham lá de baixo. Marshall inclinou-se sobre o balcão e deparou com uma cena cômica. Sara, de joelhos, não obstante a saia que usava, tramava furiosa luta com uma gaveta do arquivo que se enroscara na sua mesa. Aparentemente, a contagem era Gavetas do Arquivo 3 X
Canelas de Sara O, e Sara era má perdedora, assim como o era a sua meia-calça.
Em má hora ela soltou uma imprecação, e então percebeu que ele estava em pé ali, mas já era tarde demais para recobrar a costumeira pose.
— Oh, alô, Marshall...
— Da próxima vez use botas de combate. Elas são mais apropriadas para colocar as coisas no lugar a  pontapés. Pelos menos eles se conheciam, e Sara estava grata por isso. Marshall já havia aparecido neste lugar vezes suficientes para ficar conhecendo bem a maioria do pessoal que trabalhava aqui.
— Estes — disse ela no eloqüente tom de guia turística — são os infames arquivos do Sr. Alf Brummel, Delegado de Polícia. Ele acabou de conseguir uns belos arquivos novos, e eu herdei estes aqui! Por que preciso deles em meu escritório é algo que não consigo entender, mas tenho ordens expressas do chefe, e aqui eles têm de ficar!
— São feios demais para o escritório dele.
— Mas a cor cáqui... é ele, sabe? Ora, talvez uma pintura e uns decalques os deixem um pouco mais alegres. Se vão se mudar para cá, o mínimo que podem fazer é sorrir. Naquele instante, o telefone interno tocou. Ela apertou o botão e atendeu.
— Sim, senhor?
A voz ríspida de Brummel gritou da caixinha:
— Ei, o meu alarme de segurança está piscando...
— Desculpe, fui eu que o acionei. Estava tentando fechar uma das gavetas do seu arquivo.
— Está bem, certo. Olhe, veja se dá um novo arranjo às coisas, sim?
— Marshall Hogan está aqui e deseja vê-lo.
— Oh, muito bem. Mande-o entrar.
Ela olhou para Marshall e apenas meneou a cabeça pateticamente.
— Você não está precisando de uma secretária? — murmurou. Marshall sorriu. Ela explicou:
— Ele botou esse arquivo junto do botão de alarme silencioso. Toda vez que abro uma gaveta, cercam o prédio inteiro. Com um aceno de despedida, Marshall dirigiu-se à porta do primeiro escritório e entrou no gabinete de Brummel. Alf Brummel se pôs em pé e estendeu a mão, o rosto explodindo em um largo sorriso que punha à mostra os dentes brancos como marfim.
— Ei, aí está o homem!
— Olá, Alf.
Apertaram-se as mãos enquanto Brummel fazia Marshall entrar e fechava a porta. O Delegado era um homem dos seus trinta e poucos anos, solteiro, ex-tira de cidade grande levando um tipo de vida extravagante que desmentia o seu salário de policial. Ele sempre dava a impressão de ser um cara amigo, mas Marshall nunca havia conseguido confiar realmente nele. Pensando bem, nem mesmo gostava muito do homem. Muito dente à mostra por qualquer coisa.
— Bem — sorriu Brummel — sente-se, sente-se.
E mesmo antes de se afundarem nas poltronas, ele estava falando novamente.
— Parece que cometemos um engano cômico este fim-de-semana. Marshall lembrou-se da cena de sua repórter na cela das prostitutas.
— Berenice não riu a noite toda, e acabei ficando vinte e cinco dólares mais pobre.
— Bem — disse Brummel, abrindo a gaveta superior da escrivaninha — é por isso que estamos fazendo esta reunião, para esclarecer o embrulhada toda. Tome. Ele apanhou um cheque e o estendeu a Marshall.
— É a restituição do dinheiro que você pagou pela fiança, e quero que saiba que Berenice vai receber uma retratação oficial assinada por mim e por este gabinete. Mas, Marshall, por favor, diga-me o que aconteceu. Se ao menos eu estivesse por lá, teria podido evitar a coisa.
— Berenice diz que você estava lá.
— Eu? Onde? Sei que entrei na delegacia e saí dela a noite toda, mas...
— Não, ela viu você no Festival. Brummel forçou um sorriso mais amplo.
— Bem, não sei quem ela viu na realidade, mas eu não fui ao Festival ontem à noite. Estive ocupado por
aqui. Marshall estava agora embalado demais para voltar atrás.
— Ela viu você bem na hora em que estava sendo presa. Brummel pareceu não ouvir essa última declaração.
— Mas continue, conte-me o que aconteceu. Preciso chegar à raiz dessa confusão.
Marshall sustou bruscamente o ataque. Não sabia por quê. Talvez fosse por cortesia. Talvez por intimidação. Qualquer que fosse o motivo, ele começou a desfiar a história direitinho, quase como um noticiário,exatamente da maneira que Berenice lhe havia contado,mas cautelosamente deixou de fora os detalhes incriminadores acrescentados por ela. Enquanto falava, seus olhos estudavam Brummel, o escritório, e todo e qualquer detalhe específico da decoração, a organização das peças do mobiliário, a agenda. Era quase um reflexo. Com o passar dos anos, ele tinha adquirido a habilidade de observar e acumular informação sem dar a impressão de estar agindo assim. Talvez fosse por não confiar no homem, mas mesmo que confiasse, uma vez repórter, sempre repórter. Dava para ver que o escritório de Brummel pertencia a pessoa exigente, desde a escrivaninha muito polida, muito em ordem até os lápis, perfeitamente apontados. Ao longo da parede, onde os feios arquivos costumavam estar, via-se um lindo conjunto de estantes e armários de carvalho, com portas de vidro e ferragens de bronze.
— Puxa, você está melhorando de vida, hein, Alf? — gracejou Marshall, olhando na direção das estantes.
— Gosta delas?
— Muito. O que são?
— Um belo substituto daqueles velhos arquivos. Servem para mostrar o que a gente consegue, se economizar os tostões. Eu detestava ter aqueles arquivos aqui dentro. Acho que um escritório deve ter um pouco de classe, certo?
— Sim, é isso mesmo, claro. Nossa, você tem a sua própria copiadora. ..
— Sim, e estantes, mais lugar para guardar as coisas.
— E outro telefone?
— Telefone?
— O que é aquele fio saindo da parede?
— Oh, aquilo é para a cafeteira elétrica. Mas de que mesmo estávamos falando?
— Sim, sim, o que aconteceu a Berenice... — e Marshall continuou a narrativa. Ele tinha bastante prática em ler de cabeça para baixo, e enquanto continuava a falar, correu os olhos pela agenda na escrivaninha de Brummel. As tardes das terças-feiras se destacavam por estarem sempre em branco, embora não fosse esse o dia de folga do Delegado. Uma terça-feira, contudo, tinha uma hora marcada: o Rev. Oliver Young,
às 2 da tarde. — Oh — disse com naturalidade — vai fazer uma visita ao meu pastor amanhã?
Percebeu imediatamente que havia ultrapassado os limites; Brummel demonstrou surpresa e irritação ao mesmo tempo. O Delegado mostrou os dentes num sorriso forçado, e disse:
— Oh, sim, Oliver Young é o seu pastor, não é?
— Vocês se conhecem?
— Não muito bem. Já nos encontramos algumas vezes, profissionalmente, acho eu...
— Mas você não freqüenta a outra igreja, aquela pequenina?
— Sim, a da Comunidade de Ashton. Mas, continue, vamos ouvir o resto do que aconteceu.
Marshall estava impressionado com a facilidade com que esse sujeito se perturbava, mas tentou não contestá-lo mais. Pelo menos, não por enquanto. Em vez disso, ele continuou a narrativa do ponto onde havia interrompido e arrematou-a com capricho, incluindo a ira da moça. Percebeu que Brummel havia descoberto alguns importantes papéis que precisava examinar, papéis que cobriram o calendário sobre a escrivaninha. Marshall perguntou:
— Diga, quem foi esse tira cheio de si que não deixou Berenice se identificar?
— Um cara de fora, nem mesmo era do nosso pelotão local. Se Berenice nos puder dar o nome ou o número da insígnia, farei com que ele seja repreendido pelo seu comportamento. Veja, tivemos de trazer alguns auxiliares de Windsor a fim de reforçar as coisas durante o Festival. Quanto ao pessoal daqui, nossos
homens sabem muito bem quem é Berenice Krueger. Brummel proferiu a última sentença com um toque de ferocidade.
— Então, por que não é ela quem está sentada aqui ouvindo todas essas desculpas em vez de mim?
Brummel inclinou-se para a frente com um ar bem sério.
— Achei que seria melhor falar com você, Marshall, em vez de fazê-la desfilar por este escritório, já um tanto estigmatizada. Suponho que você saiba por quantas aquela garota tem passado. Está bem, pensou Marshall, perguntarei.
— Estou há pouco tempo na cidade, Alf.
— Ela não lhe contou?
— E você adoraria fazê-lo?
Saiu sem querer, e doeu. Brummel afundou-se de volta na cadeira e estudou o rosto de Marshall.
Nesse exato momento, Marshall estava pensando que não se arrependia do que tinha dito.
— Estou aborrecido, caso você não tenha percebido. Brummel iniciou um novo parágrafo.
— Marshall... eu quis vê-lo hoje pessoalmente porque queria... consertar esse negócio.
— Então, vamos ouvir o que você tem a dizer sobre Berenice. Brummel, é melhor você escolher com
cuidado as palavras, pensou Marshall.
— Bem... — gaguejou Brummel, subitamente colocado em cheque. — Achei que você poderia querer saber o que aconteceu caso você viesse a achar a informação útil ao lidar com ela. Sabe, foi diversos
meses antes de você assumir o jornal que ela veio a Ashton. Apenas poucas semanas antes da sua chegada,
a irmã dela, que fazia faculdade, suicidou-se. Berenice veio a Ashton cheia de fúria vingativa, tentando solucionar o mistério em torno da morte da irmã, mas...todos nós sabíamos que era apenas uma dessas coisas que acontecem, para as quais nunca haverá explicação. Marshall nada disse por espaço significativo de tempo.
— Eu não sabia disso. A voz de Brummel era baixa e pesarosa, ao dizer:
— Ela tinha certeza de que havia algum tipo de sujeira envolvida. Foi uma investigação bem agressiva a que ela conduziu.
— Bem, ela tem mesmo o faro de repórter.
— Ter, isso ela tem. Mas veja, Marshall... a prisão, foi um engano, um engano humilhante, para falar a verdade. Realmente não achei que ela desejasse ver o interior deste prédio tão cedo. Compreende agora?
Mas Marshall não estava certo de compreender. Nem mesmo estava certo de ter ouvido tudo o que fora dito. De repente, ele se sentiu muito fraco, e não conseguia descobrir aonde sua raiva fora parar tão depressa. E que dizer das suas suspeitas? Ele sabia que não acreditava em tudo que aquele sujeito estava dizendo... ou acreditava? Sabia que Brummel havia mentido a respeito de não estar no Festival... mas havia
mesmo? Ou será que não ouvi direito o que ele disse? Ou... onde é mesmo que estávamos? Vamos lá, Hogan, você não dormiu direito a noite passada?
— Marshall?
Marshall olhou bem nos olhos cinzentos e atentos de Brummel, e sentiu-se meio amortecido, como se estivesse sonhando.
— Marshall — disse Brummel — espero que compreenda. Agora você compreende, não é?
Marshall precisou obrigar-se a pensar, e percebeu que era mais fácil se não olhasse diretamente nos olhos de Brummel por um momento.
— Uhm... — Era um começo idiota, mas era o máximo que conseguiu pôr para fora. — É, sim, Alf, acho que percebo o que quer dizer. Suponho que agiu corretamente.
— Mas realmente quero acertar todo esse negócio, especialmente entre nós dois.
— Ora, não se preocupe. Não é assim tão importante.
Mesmo enquanto estava dizendo isso, Marshall se perguntava se realmente havia dito essas palavras. Os grandes dentes de Brummel tornaram a surgir.
— Fico muito contente em ouvir isso, Marshall.
— Mas, olhe, você poderia pelo menos ligar para ela. Ela foi atingida de uma forma bem pessoal, não acha?
— É o que farei, Marshall.
Depois disso, Brummel inclinou-se para a frente com um sorriso estranho no rosto, as mãos fortemente  entrelaçadas sobre a escrivaninha e os olhos cinzentos prendendo Marshall naquele mesmo olhar entorpecente,penetrante, estranhamente calmante.
— Marshall, falemos agora de você e do resto desta cidade. Sabe, estamos realmente contentes em tê-
lo aqui para assumir o Clarim. Sabíamos que seu estilo refrescante de jornalismo seria bom para a comunidade.Vou ser franco em dizer que o último redator foi... um tanto prejudicial ao ânimo da cidade, principalmente no fim. Marshall sentiu-se levado na onda dessa conversa, mas podia perceber que aí vinha algo. Brummel continuou:
— Precisamos do seu tipo de classe, Marshall. Você dispõe de grande poder que pode exercer através da imprensa, e todos sabemos disso, mas é necessário o homem certo para manter esse poder direcionado no
rumo certo, para o bem comum. Todos nós nos cargos públicos estamos aqui para servir aos melhores interesses da comunidade, da raça humana se pensarmos bem no assunto. Mas você também, Marshall. Você está aqui para o bem do povo, da mesma forma que o restante de nós.
Brummel passou os dedos pelo cabelos, um gesto nervoso, e então perguntou:
— Bem, entende o que estou dizendo?
— Não.
— Bem... — Brummel tentou encontrar um novo ponto de partida. — Acho que é como você disse, faz
pouco tempo que chegou aqui. Será que é melhor eu ir diretamente ao assunto?
Marshall deu de ombros como a dizer “por que não?” e deixou Brummel continuar.
— Esta é uma cidade pequena, antes de tudo, o que significa que um problemazinho qualquer, mesmo entre um punhado de pessoas, vai atingir e preocupar quase todas as outras pessoas. E a gente não pode-se esconder por trás do anonimato simplesmente por que ele não existe. Ora, o antigo redator não entendia isso e realmente causou alguns problemas que prejudicaram toda a população. Ele era um demagogo patológico. Destruiu a fé que as pessoas tinham no governo local, nos funcionários públicos, umas nas outras, e, por fim, nele próprio. Foi algo que doeu. Foi uma ferida no nosso lado, e está demorando para todos nós nos recuperarmos. Completando, deixe-me dizer-lhe que, para sua informação, aquele homem finalmente teve de sair da cidade coberto de vergonha. Ele molestou uma menina de doze anos. Tentei evitar a repercussão do caso tanto quanto possível. Mas nesta cidade foi realmente desajeitado, difícil. Fiz o que achei que causaria a menor aflição e dor à família e às pessoas em geral. Não levei a queixa judicial contra esse homem adiante, contanto que ele deixasse Ashton e nunca mais pusesse os pés aqui. Ele concordou com essa condição. Mas jamais me esquecerei do choque que causou, e duvido que a cidade tenha esquecido. — E isso nos traz de volta a você, e nós, os servidores do público, e também aos membros desta comunidade. Uma das maiores razões pelas quais essa confusão com Berenice me deixa chateado é por realmente desejar um bom relacionamento entre este gabinete e o Clarim, entre mim e você, pessoalmente. Detestaria ver qualquer coisa estragar as coisas. Precisamos de união por aqui, camaradagem, um bom espírito de comunidade. Ele fez uma pausa de efeito.
— Marshall, gostaríamos de saber que você está do nosso lado e trabalhando em prol desse objetivo.
Então veio a pausa e o olhar longo e cheio de expectativa. Era a vez de Marshall. Ele se remexeu um pouco na cadeira, organizando os pensamentos, sondando os sentimentos, quase evitando aqueles fixos olhos cinzentos. Talvez esse sujeito estivesse usando de franqueza, ou talvez esse pequeno discurso não passasse de uma astuta manobra diplomática visando a afastá-lo de alguma coisa que Berenice, inadvertidamente, houvesse descoberto. Mas Marshall não conseguia pensar com coerência, nem mesmo sentir com coerência. Sua repórter tinha sido presa falsamente e jogada numa porcaria de cadeia para passar a noite, e ele já nem parecia se importar; esse Delegado de sorriso dentuço a estava fazendo passar por mentirosa, e Marshall estava consentindo. Vamos, Hogan, lembra-se do motivo que o trouxe aqui?
Mas ele se sentia tão cansado! Ficava a relembrar o motivo de ter-se mudado para Ashton. Deveria ter sido uma mudança no estilo de vida dele e da família, um tempo para deixar de brigar e arranhar as intrigas da cidade grande e simplesmente procurar as histórias mais simples, coisas como campanha de ajuntar jornal
da turma da escola e gatos que subiam nas árvores e não conseguiam descer. Talvez fosse apenas a força do hábito depois de todos os anos passados no Times que o levasse a pensar que tinha de submeter Brummel a um interrogatório. A troco de quê? Mais briga? Puxa vida, que tal um pouco de tranqüilidade e silêncio para variar? De súbito, e contrário aos seus melhores instintos, ele soube que não havia nada com que se preocupar; o filme de Berenice estaria em ordem, e as fotos provariam que Brummel estava certo e ela errada. E Marshall realmente desejava que fosse assim. Mas Brummel ainda estava esperando uma
resposta, ainda o estava mirando com aquele olhar entorpecedor.
— Eu... — começou Marshall, e nessa hora sentiu-se tolo e desajeitado. — Olhe, estou realmente cansado
de brigar, Alf. Talvez eu tenha sido criado assim, talvez tenha sido isso o que me fez sair bem no meu trabalho com o Times, mas resolvi mudar-me para cá, e isso tem de significar alguma coisa. Estou cansado, Alf, e não estou ficando mais jovem. Preciso de cura. Preciso aprender como realmente é ser humano e viver em uma cidade com outros seres humanos.
— Sim — disse Brummel — é isso aí. É exatamente isso. — Então... não se preocupe. Como todos, vim aqui procurar paz e tranqüilidade. Não quero brigas, não quero encrencas. Nada tem a temer de minha parte. Brummel ficou radiante e esticou a mão para selarem o acordo. Ao apertar a mão dele, Marshall sentiu-se quase como se tivesse vendido parte da alma.
Será que Marshall Hogan realmente havia dito tudo aquilo? Eu devo estar cansado, pensou. Sem o perceber, ele se encontrava em pé do lado de fora da porta de Brummel. Aparentemente, seu encontro havia terminado. Depois que Marshall saiu e a porta foi bem fechada, Alf Brummel afundou-se em sua cadeira com um suspiro de alívio, e deixou-se apenas ficar sentado por algum tempo, fitando o espaço, recuperando-se, criando coragem para enfrentar a próxima penosa tarefa. Marshall Hogan era apenas o aquecimento, no que lhe dizia respeito. O verdadeiro teste estava por começar. Estendeu a mão ao telefone, puxou-o um pouco mais para perto, ficou a fitá-lo por uns instantes, e então discou um número. Hank dava os últimos retoques na pintura que fazia na frente da casa quando o telefone tocou e Mary chamou, dizendo que era Alf Brummel. Puxa, pensou Hank. E aqui estou eu, com um pincel encharcado na mão. Gostaria que ele estivesse aqui. Ele confessou seu pecado ao Senhor enquanto se dirigia ao telefone.
— Olá — disse. Em seu escritório, embora estivesse a sós, Brummel deu as costas à porta para tornar mais
particular a conversa, e abaixou a voz ao falar.
— Oi, Hank. Aqui é o Alf. Achei que devia ligar para você esta manhã e ver como está... depois de ontem
à noite.
— Oh... — disse Hank, sentindo-se como um ratinho na boca do gato. — Acho que estou bem. Melhor,
talvez.
— Então você pensou no assunto?
— Sim, claro. Pensei muito. Orei a respeito, verifiquei novamente a Palavra com relação a certas questões...
— Hummm. Parece que você não mudou de idéia.
— Bem, se a Palavra de Deus mudasse, então eu mudaria, mas acho que o Senhor não retira aquilo que
disse, e você sabe em que posição isso me coloca.
— Hank, você sabe que a assembléia extraordinária será realizada sexta-feira.
— Sei.
— Hank, realmente gostaria de ajudá-lo. Não quero vê-lo destruir-se. Acho que você tem sido bom para a igreja, mas... o que posso dizer? A divisão, a murmuração... estão a ponto de acabar com a igreja.
— Quem está murmurando?
— Ora, vamos...
— E por falar nisso, quem convocou a assembléia em primeiro lugar? Você. Sam. Gordon. Não tenho dúvida de que Lou ainda esteja por trás disso tudo, bem como de quem quer que tenha pichado a frente da
minha casa.
— Estamos todos preocupados, apenas isso. Você, bem, você está lutando contra o que é melhor para a
igreja.
— Que engraçado! Achei que estava lutando contra você. Mas ouviu o que eu disse? Alguém pichou a frente da minha casa.
— O quê? Pintou o quê? Hank despejou tudo em cima dele. Brummel deixou escapar um gemido.
— Ah, Hank, isso é doentio!
— E Mary está-se sentindo mal, e eu também. Ponha-se em nosso lugar.
— Hank, se eu estivesse em seu lugar, reconsideraria. Não vê o que está acontecendo? Os rumores estão se espalhando e a cidade toda está-se colocando contra você. Isso também significa que, não demora muito, e a cidade toda se porá contra a nossa igreja, e temos de sobreviver nesta cidade, Hank! Estamos aqui para ajudar as pessoas, estender as mãos para elas, não para colocar um percalço entre nós e a comunidade. — Eu prego o evangelho de Jesus Cristo, e há um bom número de pessoas que apreciam esse fato. Onde, exatamente, está esse percalço de que você está falando?
Brummel estava ficando impaciente.
— Hank, aprenda a lição com o último pastor. Ele cometeu o mesmo erro. Veja o que lhe aconteceu.
— Foi o que fiz, aprendi com ele. Aprendi que tudo o que preciso fazer é desistir, guardar tudo, esconder a
verdade em alguma gaveta para que ela não ofenda a ninguém. Então estarei bem, todo mundo gostará de
mim, e seremos uma família feliz novamente. Aparentemente, Jesus estava enganado. Ele podia ter conservado uma porção de amigos se se tivesse omitido e feito o jogo político.
— Mas você quer ser crucificado!
— Eu quero salvar almas, quero convencer pecadores, quero ajudar aos crentes recém-convertidos a crescer na fé. Se eu não fizer isso, terei muito mais a recear do que você e o resto do conselho.
— Eu não chamo isso de amor, Hank.
— Eu amo a todos vocês, Alf. É por isso que lhes dou o remédio de que precisam, e especialmente no que
diz respeito ao Lou. Brummel sacou uma arma poderosa.
— Hank, você já parou para pensar que ele pode processá-lo? Houve uma pausa no outro lado.
Finalmente, Hank respondeu:
— Não.
— Ele pode processá-lo por prejuízos, calúnia, difamação de caráter, angústia mental, e quem sabe lá o que mais? Hank respirou fundo e apelou ao Senhor, pedindo e sabedoria.
— Você está vendo qual é o problema? — disse finalmente. — É grande demais o número de pessoas que já não sabem, ou não querem saber, qual é a verdade. Não acreditamos em algo, de modo que caímos por qualquer coisa, e agora sujeitos como o Lou se metem numa confusão onde podem magoar a família, iniciar as próprias fofocas, arruinar as suas reputações, tornarem-se miseráveis em seu pecado... e depois
procurar alguém em quem jogar a culpa! Quem está fazendo o que a quem?
Brummel apenas suspirou.
— Falaremos a respeito de tudo isso sexta à noite. Você estará lá?
— Sim, estarei. Estarei aconselhando alguém e depois irei à reunião. Já aconselhou alguém em sua
vida? — Não.
— Adquirimos um genuíno respeito pela verdade quando temos de ajudar a limpar vidas construídas sobre a mentira. Pense nisso.
— Hank, tenho de pensar nos desejos dos outros. Brummel desligou ruidosamente e enxugou o suor das palmas das mãos.